Depois de anos atendendo tanto trabalhadores quanto empresas, uma coisa ficou clara para mim: passivo trabalhista quase nunca nasce de má-fé.
Nasce da rotina.
De um processo que fazia sentido há cinco anos e ninguém parou para atualizar. De um controle de ponto configurado do jeito que sempre foi, sem que ninguém questionasse se ainda estava adequado. De uma prática que se tornou habitual, mas nunca foi realmente revisada.
E, com o avanço da fiscalização digital e dos cruzamentos de informações entre os sistemas públicos, aquela margem de “depois eu regularizo” ficou cada vez mais estreita.
Onde eu costumo encontrar os maiores riscos
Cinco pontos concentram boa parte dos problemas que vejo: admissão, jornada, folha de pagamento, benefícios e desligamento.
Cada um tem suas particularidades, mas dois merecem atenção especial neste momento.
O primeiro é jornada e horas extras.
Já não basta ter um sistema de ponto funcionando. É preciso verificar se os registros realmente correspondem à rotina de trabalho.
Horas extras habituais, intervalos registrados de forma inadequada, jornadas incompatíveis com a realidade, ajustes manuais sem justificativa e sistemas mal configurados podem se transformar em passivo significativo.
O segundo ponto ganhou ainda mais relevância em 2026: os riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Desde 26 de maio de 2026, a nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 passou a exigir que esses fatores sejam considerados no gerenciamento de riscos ocupacionais. O próprio Ministério do Trabalho cita, entre os exemplos, situações como sobrecarga e assédio no trabalho.
Isso significa que questões como organização do trabalho, excesso de demandas, assédio e outros fatores que possam representar riscos à saúde dos trabalhadores precisam deixar de ser tratados apenas como problemas de RH e passar a integrar, quando presentes, a gestão de riscos ocupacionais.
Por que vale a pena olhar para isso antes, e não depois?
Sei que soa como mais uma tarefa para colocar na lista.
Mas a conta costuma ser simples: identificar e corrigir uma rotina antes que ela gere uma fiscalização, uma denúncia ou uma reclamação trabalhista tende a ser muito menos custoso do que tentar remediar o problema depois.
O passivo trabalhista tem esse jeito silencioso de se acumular.
Ele pode estar sendo construído durante anos sem chamar atenção, até aparecer de uma vez — muitas vezes na hora mais inconveniente.
Não existe uma receita pronta que sirva para toda empresa.
O risco muda de acordo com o porte, a atividade, a estrutura e, principalmente, com a forma como o trabalho realmente acontece no dia a dia.
Por isso, uma auditoria trabalhista preventiva, olhando com atenção para jornada, admissão, folha, benefícios, saúde e segurança e desligamentos, pode ser um bom ponto de partida para identificar onde estão os riscos e o que precisa ser corrigido.
Se você cuida de RH ou é sócio de uma empresa que ainda trata a rotina trabalhista apenas como uma obrigação operacional, talvez seja hora de olhar para ela com um pouco mais de atenção.
Antes que a fiscalização — ou um ex-colaborador — faça essa revisão no seu lugar.

